Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

A história de um livro...

 

Foi já depois do almoço que a pergunta saiu disparada pela Lili :

 

- E o teu livro ?

 

Durante aí uns 2-3 segundos os neurónios a debaterem-se entre eles: Sim o livro, ela ficou de trazer um livro ? Alguém lhe emprestou um livro? Ela tinha de devolver um livro ?

Quando os neurónios não se entendem uns com os outros como é que se há-de fazer luz no nosso espírito?

 

Perante a minha hesitação, o sorriso da Lili recua, semicerra-se-llhe os olhos e,de cenho franzido (sim, a palavra não é das mais bonitas mas, porra, toda a gente tem cenho e o cenho da Lili franze quando ela duvida!)diz:

 

- Sim, o teu livro para crianças...

 

- Ah...esse - digo eu como se, por acaso, tivesse escrito mais algum.

 

Os neurónios agitam-se, atropelam-se, vão de encontro às meninges enquanto a voz roufenha do altifalante vai chamando :

 

Atenção, atenção! Classe de neurónios de 78 é chamada com urgência à recepção ! Aos poucos lá vão aparecendo e soprando ao ouvido:

 

Já eras casada, tinhas as duas filhas, já há uns anos que tinhas deixado os estudos de mercado e entrado na publicidade. Mas a grande companhia era a mesma. Ainda com mais detergentes, mais margarinas, mais pastas de dentes, mais sabonetes....

 

(Sabem, a grande companhia ainda lá está, mas maior, por isso vende mais detergentes, mais margarinas, mais pastas de dentes, mais sabonetes...)

 

- Olga, arranja-me um ! Leio sempre para os meus netos ! Gostava de lhes ler o teu !

 

- Aquilo é só um livrinho...feito à pressa ! - não é desculpa de falsa modéstia, é a verdade!

 

E conto:

 

Um dia a... (bloqueio total - só devo ter um neurónio acordado e esse manda-me imagens sem som - um rosto miúdo,os olhos fecham quando ri, morena, girinha -acorda outro que me lança frases em estilo sms.):

 

Oh, pá, vocês sabem, teve um filho chamado Nicola, de um italiano...

 

Salva-me a Lena Coito: - A Maria João Macedo !

 

-Essa mesma ! - como é que me fui esquecer de um nome que dei à minha própria filha !

 

...então um dia a MªJoão veio ter comigo, ela falava por repentes.De jacto.Com risos pelo meio.Tudo sempre a fervilhar naquela cabeça.Vamos fazer livros infantis com algum fundo didáctico.

 

Também veio ter com boa. Em menos de um instante formámos um Grupo Editorial : Grupo Puero, criança em grego ou latim,não interessa. Qual Leya qual coisa.

 

Grupo Puero !

Eu e ela ! Tudo com muita pressa, para aproveitar uma aberta numa tipografia de um amigo dela.

 

Trouxe-lhe a história logo no dia a seguir. Reis, rainhas, princesa, reino sem flores, tudo para explicar a função da clorofila.

 

Tivemos de alargar o grupo para três, por causa das ilustrações.

 

Essas também têm que se lhe diga. Dei a história a ler ao meu parceiro criativo, o Carlos Marques e ateei-lhe a pressa.

 

No outro dia traz-me maquetas para ver se eu gostava e fazer as alterações que fossem precisas e passar à fase final.

 

Mostrei à MªJoão. Estão óptimas ! E foram mesmo assim !

 

Revisão de provas ? Nenhum dos meus neurónios se lembra.

Mas se houve porque é que majestade vem com um g ?

 

Resumindo, fizeram-se 5.000 exemplares que a Agência Portuguesa de Revistas espalhou por todo o país.

 

Sobraram para aí uns 600. Feitas as contas deu para pagar à tipografia.

 

Pegámos em 500, muito bem embalados, mandámos para as crianças de Cabo Verde.

 

Ali, depois do Saramago e do Lobo Antunes sou a escritora portuguesa, viva, mais lida.... (esta informação foi-me dada por um neurónio já com os copos)

 

E pronto ! Esta é uma história simples de um livro cá do meu bairro...

 

 - Olga, arranja lá um, eu pago, eu pago - insistia a Lili, já com várias a fazer coro,enquanto me abria a carteira a um palmo do nariz?

 

- Ok, amiguinhas eu vou mandar o livro.

 

  E como a vida custa a todos vão mesmo pagá-lo.

 

  Já fiz o câmbio para euros

 

  Quando a gente se tornar a ver dão-me 10 cêntimos cada uma !

 

  (eheheheh)

 

 

 

sinto-me: os neurónios também se abatem
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publicado por entreparentes às 15:15
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4 comentários:
De jonasnuts a 29 de Maio de 2008 às 21:51
Lembro-me de ir à tipografia, ver as provas, e ficar deliciada com as sobras dos cortes. Trouxe quilos daquilo.

Os 600 que sobraram foram aqueles que andaram durante anos e anos, em caixotes, de casa em em casa atrás de nós, certo, mãe?

Tens isso por aí? O puto mais velho, mais dia menos dia aprende a história da clorofila.
De Crisálida a 10 de Junho de 2008 às 01:46
Muito bom! Porra, já vi que vou viciar no blog da mãe também! lol
Nunca reeditaste o livro?
De Anónimo a 18 de Abril de 2011 às 12:19
Olá,
Fiquei maravilhada por encontrar a autora deste livro, o qual me acompanha desde a infância. Hoje sou Educadora de Infância e conto esta história por transmitir de uma forma divertida e aliciante a necessidade da clorofila. Embora com páginas amareladas e já um pouco rasgadas, não sai da minha mala. Um beijo grande e obrigada. Maria José
De entreparentes a 19 de Abril de 2011 às 14:14
Olá, Maria José
Pois se ficou maravilhada em me descobrir, mais maravilhada fiquei eu por saber que, passados tantos anos, a história ainda vai tendo utilizada.
Se quiser posso mandar-lhe meia dúzia deles, para ir substituindo.
Obrigada e um beijo :O)

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