Domingo, 30 de Setembro de 2007

O TRIUNFO DO SABÃO AZUL E BRANCO


A BARRELA

O ritual da barrela começava depois do almoço das sextas-feiras.
Para um tacho grandote iam-se cortando finíssimas lascas de sabão azul e branco ou as sobras do sabão branco (chamado de seda e com o qual lavávamos o cabelo antes de aparecerem as almofadinhas coloridas DOP - o 1º shampoo que eu usei...era um enorme luxo !!!).

Voltemos à barrela:
Água, horas no fogareiro a petróleo, uma mexedela de vez em quando e estava pronta a mistela.

Um cheiro acre atravessava toda a casa e nunca me lembraria  de o  associar ao "cheirinho da roupa bem lavada ".

Mais água, roupa branca de um lado, de cor no outro, ficava tudo a marinar até
ao dia seguinte em que era esfregada, batida, torcida e, finalmente, estendida.

O tanque já era um progresso em relação aos rios .

Eu ainda vi, nos anos 70, num Março de gelar, no rio dessa lindíssima terra que é S. Pedro do Sul, mulheres a lavar roupa metidas na água até aos joelhos.


Mas fosse onde fosse,  no final,  eram as mãos as grandes heroínas sofredoras.

Inchadas, intumescidas , com frieiras que não conseguiam sarar de uma semana para a outra, as mãos devem ter sido as mais agradecidas quando chegaram os detergentes.


O MILAGRE

Diz a história que, internacionalmente, foi PERSIL o primeiro a aparecer há coisa de 100 anos e o seu lançamento foi feito com uma avioneta a escrever a branco, num céu bem azul, o nome da marca.

Mas por cá, e vou aonde me leva a memória, só dou por eles em finais dos anos 50.

 
Para mim o primeiro a chegar foi o TIDE Não me lembra exactamente como é que se apresentava, o slogan, as vantagens, não recordo nada a não ser que era o do folhetim da coxinha. TIDE foi o grande precursor das novelas ao patrocinar uma rádio-novela.

 Chamava-se Simplesmente Maria,  passava às 2 e meia da tarde e fazia chorar as pedras da calçada. À protagonista chamar-se-ia hoje deficiente motora, mas os tempos eram outros e Portugal parava para ouvir as agruras da coxinha.

Melhor guardadas tenho as recordações de quem chegou depois e em força.


Oooooomo lava mais branco ! - gritava o locutor que eu penso ser o Miguel Simões (mas quem sabe mesmo bem destas coisas de locuções é o meu amigo Luís Gaspar, merece a pena deitar um olhinho ao seu magnífico site).
Promessas : Deixe o sabão, pare de esfregar, é só pôr de molho, passar por água limpa e aí está a sua roupa branca e com um perfume de bem lavada.

E mostravam - eu pensava que a minha roupa estava branca antes de ver a tua...

Foi o que as donas de casa quiseram ouvir...acabaram-se os trabalhos forçados, as frieiras...são rosas Senhor !!!

Mas para o sucesso ser garantido, OMO desencadeia uma acção sem precedentes no nosso País - a troca de tampas por brindes.

Até onde vai a minha memória ( e eu não sou propriamente um elefante) só me recordo de trocar tampas de farinha Amparo - ou seria 33 ? - por uma bola de praia que íamos  receber aos Companheiros da Alegria - um programa de rádio ao vivo do Igrejas Caeiro.

Nada comparado com o fenómeno dos baldes e alguidares de plástico !
Primeiro porque o plástico era a grande novidade do momento...leve mas resistente e colorido, derrotando facilmente o alumínio e o esmalte.

Mais tarde, quando toda a gente já tinha baldes e alguidares, veio outra inovação - o  Pyrex, saladeiras brancas com florinhas, e depois um serviço de jantar que levava meses, anos a fazer.

OMO estava lançado e continua até hoje a lavar mais branco.

E atrás vieram muitos mais.

SUNIL  acção fria para avivar as cores.

EXTRA  fazia o mesmo que os outros e ainda dava bonecos de plástico para os miúdos.

AJAX  veio a cavalo, com um cavaleiro branco com lança e tudo, qual Sir Lancelot do tanque.

E mais uns... Superpop, o Xau , etc.

Mas as donas de casa começaram a queixar-se que as nódoas nem sempre saíam bem e que, afinal sempre era preciso esfregar.

Muito estudo de mercado se fez nessa altura...

Não, elas não podiam voltar ao sabão. Lançaram, então,  RINO , uma barra de aglomerado de detergente tal e qual uma barrinha de sabão.
Mas aquilo derretia-se tudo e teve vida curta.


Então chegou outro " milagre" - PRESTO - o dos glutões verdes representados por bolinhas que devoravam as nódoas.  
                     
O spot de televisão com uma menina lindíssima ( não é para me gabar mas era a minha filha! ) perguntava à mãe que lavava no tanque: - mãe,há mesmo gulutões no PRESTO ?

A dúvida dela era a de muitas senhoras que, ao princípio, abriam a  medo a embalagem, não fossem sair lá de dentro os ET devoradores .

A TECNOLOGIA

Os anos tinham passado, SPKIP já estava no mercado para as privilegiadas que tinham máquina de lavar roupa. Chegou recomendado pelas principais marcas de máquinas.

                                      

Mas as máquinas disseminaram-se e muitas mais marcas vieram depois.



O TIDE,  que se tinha ido embora, voltou em força. 



                                          

ARIEL com um posicionamento de top.








                                      




E finalmente o 1º ecológico PERSIL - amigo da roupa e do meio-ambiente ! 




Há mais, mas vamos ao que me interessa.

Disseram elas : a roupa sai áspera da máquina !

Isso é que não...consumidoras descontentes é o que não é preciso !

Sai amaciadores à pressão, já !

CONFORT, QUANTUM, VERNEL e outros,  e ainda mais as marcas brancas que entretanto apareceram.

E cheirinhos ??? É o que se quiser  !

Rosa, jasmim, bálsamo, alfazema, silvestres, aloé, do monte ,pêssego, laranja, limão e, com certeza salada de frutas, frescura marinha (não confundir com maresia) e até a Ilhas gregas (antes dos incêndios, presumo).

Cheirinhos é à vontade da freguesa !

Ai e agora ? Parece que está tudo inventado !

Desenganem-se !

Aí está a grande novidade do século 21 !

Detergentes com o cheirinho e o poder  do SABÃO AZUL E BRANCO !

Alguns ainda colocam por baixo - baking soda para dar um ar mais convincente !

Explicava uma gestora de produto, na televisão - detectámos que as donas de casa tinham saudades do sabão azul e branco e fomos ao encontro das suas necessidades.

Fiquei bamba daquilo que os portugueses sentem saudades.

E chega-me ao olfacto da memória o cheiro acre e nauseabundo ao sabão da barrela da minha avó a fervilhar no fogareiro a petróleo e estou como o Outro - não sei para onde vou, mas sei que não vou por ali.

A Cassy diz para eu não cuspir para o ar que, no final,  sou muito influenciada pela publicidade :

- Põe os olhos em mim, não me deixo ir nessas coisas da publicidade...- diz ela metendo um caldo de galinha Knorr numa magnífica canja de galinha do campo, para dar mais gostinho !!!

publicado por entreparentes às 16:25
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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Um sofá vermelho


Estou de regresso.

Voltei, mas ainda não trouxe comigo a vontade de escrever. Ficou perdida algures entre sustos de morte, pedras na vesícula e preguicite letal.

O que me vale é estar entre parentes virtuosos que sempre me ajudam a atravessar para a outra margem da crise.

Desta vez é a minha tia São. Deixem-me que a apresente para a compreenderem melhor quando ela começar a falar, que também fala que se farta. Pois, não há nada a fazer, é mal de família...

Ela é a minha tia mais nova, praticamente da minha idade e tenho com ela todas as afinidades do mundo, falar com ela é como falar para o espelho.

Desculpem, fui num instante ver a Sic Notícias...interromperam a entrevista do Pedro Santana Lopes para darem a chegada do Mourinho. O Santana ficou possesso e abandonou o directo a perguntar que país é este que dão mais importância a um treinador de futebol do que ao representante de um partido ? Pois por ele não saber que país é este é que nunca chega a lado nenhum. Por muito que ele queira, e parece que ele agora quer outra vez, não é um special one !!!

Onde é que eu ia ? Ah...a São.

A São foi publicitária. Não foi das primeiras mas quase.

Numa altura em que a profissão era tida como um pouco duvidosa para senhoras, a São entrou para criativa de uma grande Agência, ligada a uma ainda maior empresa multinacional, o que calou as vozes mais conservadoras do clã.

 Passou a ter muito cuidado com o que dizia nas reuniões de família desde aquele dia em que escandalizou a tia Cassy ao afirmar que andava a tentar o posicionamento ideal para um cliente.

Atravessou três décadas a criar slogans, claims,spots e, agora, já retirada das lides, ri-se a ver os seus filmes passarem nas memórias do Imagens de Marca.

Ainda manda muitos palpites ao ver a publicidade de agora... que o puto que pede o preservativo no oculista merecia um prémio de interpretação e diz : Muito bom ! Bom casting ! Com o mesmo entusiasmo que às vezes resmunga Que nojo... E a gente mete-se com ela com a frase com que nos martirizou toda a vida...não é para si, não é o target !

Vive sozinha.Tem filhas que vê todos os dias, netos pequenos que entram e saem, às vezes comem, outras dormem e, isto, sempre à mistura com barras de chocapic, batatas bicho e bolas de Berlim, agora com o consumo reduzido por imposição das respectivas mães.
Mas já não se livra de ficar, para a posteridade,  associada a coisas doces...pois se até a mais pequena, que começa agora a juntar palavras já pede - vóvó qué bolo !

Tirando esta agitação a casa fica quieta.

Em fundo há sempre o ruído  da televisão acesa.

E há o sofá. Vermelho.  Fetiche dela.
                                                                   

Já se lhe moldou ao corpo e tornou-se o refúgio seguro contra neuras instaladas.

Nele vive parte grande da sua vida !

Juntos gozam os CSI, House,Grey e mais tudo quanto assassine,cure,salve, até que os olhos fechem e ela acorde, no dia a seguir - torcida mas feliz !

Nele lê.
Nele se senta para comer, para ouvir música, para pintar as unhas, para escrevinhar...
Nele para não fazer nada. Só pensar.
Imaginar.
O que podia ter sido. O que foi. O que vai ser.

Ninguém sabe o que lhe vai na cabeça naquelas alturas.

Ela e o sofá vermelho.

Então, quando lhe atiram  um sai já desse maldito sofá e vai aproveitar a vida, ela afina.

Não gosta que lhe ofendam o sofá...

No fundo ele talvez seja o símbolo perfeito da sua própria solidão.

Isto até podia ser deprimente se a minha tia São não fosse um bocadinho egocêntrica e achasse que a solidão é a grande oportunidade de estar com a melhor companhia do mundo - a imaginação dela.

Amanhã vou deixá-la falar de um das muitas historietas publicitárias que a gente ainda tem que aturar.

A vida dela dá pano para mangas o que é esquisito que ela usa sempre mangas à cava ! (o que eu tenho aprendido com ironias do destino )

publicado por entreparentes às 10:58
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