Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

COSTA DA CAPARICA - I



Foram estas batatas que despertaram os sabores da minha memória.

A Costa fez parte da minha vida nos anos 50 e 60, o que abarca a minha meninice, infância e adolescência.

Primeiro, por via de madrinha abastada e porreira, usufruíamos de 1 mês de férias na vivenda dela - Vivenda Lídia Maria, bem a meio da rua dos Pescadores.
Mais tarde, a minha mãe não foi de modas, e tivemos casa ao ano.

Ao princípio, e as imagens chegam-me por flashes, ir de férias era uma grande aventura.
Para mim, a Costa era muito loooonge !

Não havia carro, nem ponte. Malas e sacos e saquetas e nós - tudo de barco até Cacilhas e, depois, camioneta pelo caminho velho. Parecia eu que ia para Trás-os-Montes.
Só quando chegava lá acima, à curva dos Capuchos e via o mar lá muito ao fundo, é que eu sentia - férias !!!

Ia para o Paraíso. Literalmente.
As passadeiras de madeira tinham logo à entrada um aro encabeçado pelos letreiros com o nome dos 'banheiros' - lembra-me bem do Dragão Vermelho, do Tarquínio e do meu Paraíso!

E o que se caminhava para chegar às barracas ou aos toldos...vegetação, dunas, muitas topadas naqueles estrados...( se a gente já a conhecesse até podia cantar - Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei p'ráqui chegar !)

Pé na água, pé na areia, pé na barraca, enche balde, entorna balde e mais o jogo do prego e o das 5 pedrinhas e a minha mãe - está um bocadinho quieta que me enches de areia !
Nem pensar em atirar-lhe areia, com a camada de Bronzaline seria o mais perfeito dos croquetes...

Então, lá muito ao longe, começava a música para os meus ouvidos :
 
- Bola Nova ! Lá vou eu ! Uma senhora comeu uma dúzia !!!

Sr. Daniel, vermelho do sol e do esforço de empurrar o carrinho areal fora, ele vendia as melhores bolas de Berlim do mundo !

Noutras alturas era a senhora dos bolos a razão do meu fascínio. Seguia-lhe os gestos. A caixa branca, com a palavra Bolos escrita a encarnado, equilibrada numa rodilha à cabeça, era pousada na areia e, como quem abre um cofre, a tampa descia para que os tabuleiros pudessem sair e dessem lugar à minha excitação - Meu Deus, só há um mil-folhas, é para mim !

E mais os pirolitos, as gasosas, as oranginas.
E, anos mais tarde - é o Rajá fresquinho, é fruta ó chocolate !

Não me posso esquecer do senhor dos barquilhos carregando às costas a grande caixa cilíndrica vermelha, com a roleta em cima - Quantas voltas, menina ?
E eu a fazer rodar a roleta...e o ponteiro que nunca passava das 4 !

Depois os barquilhos passaram a línguas da sogra, vinham à dúzia em sacos de plástico, mas sem roleta nem tinham o mesmo sabor !

E, claro, as inesquecíveis, as incontornáveis, as indefectíveis batatas fritas.
Aquele gosto estaladiço a meio-sal, meio óleo, meio batata, meio sol, meio mar, ficou para sempre agarrado ao palato da memória.

Bom, bom mesmo, era comer as batatas a ver os Robertos ...
Às vezes, com a estridência das vozes nem se percebiam as falas, mas entendia-se o enredo, percebia-se a trama e era sempre o grande gáudio quando acabava tudo à marretada !

Vou comprar dessas batatas Gourmet, sentar-me no meu sofá a ver um Prós e Contras e sei que serei transportada aos meus tempos de menina... as batatas até que podem ser ligeiramente diferentes, mas há sempre uns fantoches para alegrar a malta !

sinto-me: com fome, claro!
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publicado por entreparentes às 21:16
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8 comentários:
De AnaD a 25 de Janeiro de 2008 às 22:37
Obrigada ... a simplicidade é uma virtude que tento cultivar!
Por isso apenas lhe agradeço este texto tão bem escrito e o entreabrir da janela das memórias para outros tempos que a idade também é outra.

O acordar de madrugada para fugir à bichas da ponte sobre o Tejo, quando a portagem era do lado oposto de graça em Agosto ... o ver o sol ainda baixo inundar de cor um tabuleiro suspenso sobre um rio que é meu ... sair do carro estacionado debaixo daquelas arvores na praia da Mata ... e a visão do mar e do areal, especialmente quando a maré estava vazia, sinónimo de muita correria com a bola ... e a meio da manha subir aquele "bar" quase suspenso onde debruçada na varanda comia a minha bola de Berlim de olhos postos no horizonte ...
Já lhe disse Obrigada? Obrigada!

PS. Gosto muito da decoração do blog
De entreparentes a 26 de Janeiro de 2008 às 13:49
Já vi que tenho mais uma parceira amiga daqueles lados ... e das bolas de Berlim !
Estou a ganhar coragem para continuar a minha saga caparicana !
Obrigada pela troca de emoções !
De * * Grilinha * * a 26 de Janeiro de 2008 às 23:17
O teu texto fez-me voltar aos anos 60/70 que tão belas recordações me trazem.

Ir á Caparica significava levantar cedo, carregar o saco da merenda e chegar já noite dentro mas muito feliz.

Nos anos 80 já tinha carro e a ponte facilitava o acesso.
Os garotos habituaram-se bem cedo á praia da rainha porque a creche da Tabaqueira os levava 1 mês inteirinho a banhos.

Ao Domingo levava-os até á praia 17 ou 18 e á tardinha comiamos uma salada de frango com milho,alface e ovo e uma coca cola na esplanada do bar a ver o pôr do sol.
Depois vinha o habitual para-arranca até atravessar a ponte e já os garotos dormiam no banco de trás, sem cadeirinha nem cinto de segurança (pouco ou nada se falava em segurança rodoviária há 25 anos).

As bolas de Berlim, as batatas fritas e o gelado faziam parte do ritual de um dia completo.

Bom Domingo
De charroco a 27 de Janeiro de 2008 às 20:13
Cheguei tarde para o cosido , não faz mal ... no entanto deixo o convite para visitar o bem disposto do charroco ... Até à próxima .
De drum major a 16 de Setembro de 2009 às 20:07
A Costa....como gostei de ler esse texto e tanta coisa me veio à memória, casa (alugada ao ano) sempre a tive desde 1957 até 1966. Primeiramente por volta de 1955 fomos para a Pensão Santo António em Santo António, no ano seguinte estive dois mêses na Pensão Vitória que era do mesmo dono da outra, mas esta ficava na praia, no mesmo grande edifício de madeira, por baixo era o banheiro da Praia da Vitória, por cima o restaurante e na parte de trás os quartos da pensão. Lembro-me de ao fim da tarde ir ajudar os pescadores a puxar as redes e assistir á lota, que bom que peixinho que giro era...

No caminho, pelo meio da mata, de Santo António até à Praia da Vitória, passava-se pelo "ninho" que era uma maravilhosa esplanada na mata e no outro caminho que bifurcava íamos dar à esplanada "Valverde", onde por vezes havua bailarico no terraço...

Depois junto ao campo de jogos havia um barravo onde alugavamos bicicletas, as primeiras que lá aluguei eram de "rodas de amparar", depois passei para as outras.

E, 1957 alugou-se uma vivenda(ao ano) em Santo António e só una anos mais tarde mudamos para a Costa, para a Av. Dom Sebastião e íamos para a "Praia Nova".

as noites passadas no cinema Copa Cabana, com cadeiras de madeira às ripinhas, que ficava por detrás do Posto de Turismo, os gelados do Costa Nova, os bolos do Papo Seco a quatro tostões e a esplanada perferida dos meus pais que era a do Sr. Eduardo, irmão do dono do cinema e da "boite" que ficava ao lado. Depois...depois a Rua dos Pescadores "Picadeiro" como era conhecido, belos passeios para cima e para baixo.
Os passeio no tractor que partia junto aos correios, onde havia uma pequena papelaria onde comprava os jornais aos meus pais e os meus "Condores Populares", O Mundo de Aventuras2 e os pequenos livros de anedotas e a revista humuristica "Can-can"...
As batatas na praia que boas e eu gostava de as molhar na água do mar, os barquilhos, os robertos e já agora quem se lembra do velho "Catitinha" de longas barbas que andava apertar a mão da "malta" toda?

Por agora é tudo, mas brevemente voltarei à velha Costa e aos bons tempos, eu geralmente não ia por Cacilhas, ia a Belém para a Trafaria e depois naquelas camionetas da Piedense, azuis e prata, com uma escada atrás para se colocar a bagagem no tejadilho e...com tanta mata, tanto pinheiro, que me lembre incêndios nunca lá houve nenhum!!......que sabe se nunca demos um pé de dança na Boite do irmão do Sr. Duarte ou no Valverde?.
De entreparentes a 17 de Setembro de 2009 às 11:59
Caro Drum Major

Tão arredia ando eu do meu blog que já me tinha esquecido a boa sensação de ter alguém a comentar !
E que comentário...à excepção da ida pela Trafaria e do Catitinha, tudo foi tão familiar que até doeu !!!
Até nas bicicletas das duas rodinhas eu andei...
Voltei lá, talvez o ano passado, ou no outro, mas fiquei tão decepcionada que nem me lembro bem.
Também escrevi sobre isso.
Mas a minha Costa, agora brasileira, é aquela que temos no coração, bem guardada na gaveta das boas recordações.
Quanto ao pé de dança...quem sabe ! Mas se não foi naquela altura estamos a fazê-lo agora, na Valsa das boas memórias !
De Paulo A. a 15 de Fevereiro de 2010 às 22:19
Drum Major,
Lembro-me bem da Pensão Santo António, dos simpáticos velhinhos que a exploravam e dessa mítica instituição a que chamavam Ninho dos tempos do "conta-me como foi". Ao lado do ninho, por onde a brisa do mar se entrelaçava com o cheiro dos pinheiros ficava o meu mais que tudo da minha infância na CC, o mini golfe. Depois comprámos casa na Torre Dom Sebastião, ao lado da Torre das argolas e começámos a frequentar a praia nova. Todos os dias, pela manhã, passávamos ao lado dos pescadores, defronte do PCP, dos Bombeiros até ao paredão. À noite era a Rua dos Pescadores, o Costa Nova, as geladarias (lembro-me bem da Pope e de um empregado que lá trabalhava que mais tarde teve uma morte fulminante num jogo de futebol). Também as escadinhas da farmácia eram ponto de encontro da mimha geração... bons tempos! Paulo
De B. Daniel a 20 de Maio de 2010 às 14:57
Que saudades. Obrigada por me ter relembrado esses belos tempos.

B. Daniel (neta do "Bola Nova")

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