Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

A minha vida já dava um filme...





Não consigo ter um filme preferido.Tenho muitos.Porque vi muitos. Quilómetros deles.

Senão fosse uma frase muito, mas mesmo muito feita, eu diria que tenho cinema no sangue, celulóide nas veias, fotogramas a saírem-me pelos olhos.

No Arco do Cego havia um cinema chamado Palácio, tinha duas enormes escadarias uma de cada lado, tudo muito grenat, muito veludo, muito pendão dourado e eu, menininha, achava que aquilo era mesmo  um palácio à séria.

Era lá que a  minha mãe trabalhava e, quando nenhuma das avós podia ficar comigo, levava-me com ela, dava-me um mil-folhas  e  um candy-bar, sentava-me num cantinho do balcão e ali ficava eu num sétimo céu de boca atulhada de doces e os olhos cheios de imagens, assistia à 1ª sessão, à da tarde e, só às vezes, adormecia no começo da noite.

O Palácio foi demolido e deu lugar ao Avis. E a minha mãe a continuar a trabalhar lá.
E eu sempre no balcão do céu.

Nos finais dos anos 50 as férias grandes, tirando o tempo da Caparica, eram passadas no Avis.

Gelados da Sibéria. Bitoques da cervejaria ao lado. E filmes, muitos filmes.E o mesmo filme muitas vezes.Em 1958 vi O Homem do Rickshaw, 49 vezes. Era um filme japonês e o actor chamava-se Toshiro  Mifune...as coisas de que eu me lembro...

Ainda hoje o italiano que percebo e arranho foi aprendido com as italianadas que  lá vi.Não, japonês não aprendi nada !

Já o meu pai, antes de se tornar operador de cinema, trabalhava no Odeon, o que quer dizer que filmes como O Prestígio Real e la Violetera não me escaparam.

Entre os dois cinemas enchi-me de Joselito pão e vinho, Marisol - um raio de luz e léguas de outros .

Nos anos 60 a minha mãe mudou-se para o recém aparecido 444 . Era outra louça !

Lembra-me do filme de inauguração - As escravas ainda existem ! E o 444 tornou-se no meu poiso habitual.

Havia na altura um acordo muito tácito entre as bilheteiras. Arranjas aí umas borlas para mim que eu arranjo para ti...

E à conta disso eu entrava no Avis, no Roma, no Monumental, no Éden, no Condes, no Império, no S.Jorge... bom em tudo o que era cinema sem pagar um tostão !

Entretanto o meu pai tornara-se um operador de imagem, trabalhava com o realizador Perdigão Queiroga, e eu assisti ali no Bairro Catarino à magia de ver e conhecer alguns dos nossos melhores artistas a fazerem cinema português. E a entrar !

A prova provada disso é aquela foto das Pupilas do Sr.Reitor, de 1961.

António Silva ao centro, Josefina Silva (?) e Elvira Velez na ponta direita.

Porque na ponta esquerda, quase a sair do plano,sentada, de boca aberta está esta vossa amiga com 16 aninhos e a esperança de que ia ser uma grande actriz. OK. não fui má de todo mas não passei de uma simples amadora, com muito gosto.

Isto tudo para vos falar de um filme e de uma actriz que me impressionaram mesmo muito.

Foi o Sunset Boulevard, que em Portugal teve o título de Crepúsculo dos Deuses, um filme de Billy Wilder, de 1950 com a Glória Swanson e o William Holden.

A descida de escada  da Glória Swanson - olhar esgazeado, expressão de diva louca, o cobrear  daquelas mãos - ficou-me para sempre na memória.

Nos meus tempos de Teatro Amador fartei-me de imitar a cena. Assim que via uma escada la estava eu a descê-la à moda da Glória.Os meus colegas já avisavam: Ó Olga, tens aqui uma escada boa para ti...

E pronto... porque é que eu resolvi escrever este post ?
Porque gosto de recordar as coisas boas da minha vida e...

...porque Nosso Senhor sempre atento aos mais ínfimos anseios terrestres lá decidiu...

Esta rapariga gosta tanto de escadas que lhe vou dar um 2º andar, sem elevador, aqui em Alcântara...

O ar esbaforido com que chego cá acima não é de cansaço...é uma nova imitação da Glória !

sinto-me: cinéfila cansada !
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Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Um sopraninho em Lisboa...



Ainda não fui ver este filme de Bruno de Almeida.

Mas gostava de ir. Mais que não seja pelo apelo que li aqui .

Sei que se passa em Lisboa. Chama-se The lovebirds.  São 6 histórias de amor, de vida, de sobrevivência.

Mas calha numa semana em que voltei a estar de costas voltadas para o cinema português.

Vi  esta semana na televisão, num dos canais cabistas, um filme de 98, de João Canijo - Sapatos Pretos, com a Burstoff, o João Reis e o Vitor Norte.

Não sou de falsos pudores, de fingidas vergonhas, as cenas de sexo explícito entre adultos não me chocam mas também, devo confessar, não me entusiasmam.

Prefiro de longe uma boa cena erótica, a tensão da intenção, o desejo latente, do que ter visto um grande plano da anatomia íntima da Burstoff e o respectivo afocinhanço dos dois intérpretes...já vi pornográficos mais artísticos !

Eu sei. Sou uma Cinderela...

...ainda acabo por ir ver o Bardem !



sinto-me: corada até às orelhas
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publicado por entreparentes às 08:26
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