Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Candeeiros bem bonitos, modernos e originais...




Avisa-se, desde já que este post  apresenta todos os indícios do que não deve ser um post. Chato e comprido. Para os que gostam mais do estilo redondo e curto eu sintetizo: Antigamente o país estava na merda, depois melhorou um bocado e, agora, se a gente não se põe a pau, caminha-se a passos largos de novo para a merda...

Passemos ao dito...

Pelo menos até há coisa de 15, 20 anos não se começava a fazer uma campanha de publicidade sem se delinear primeiro um copy strategy.
Primeira pergunta num briefing - qual é o target ? Sexo, idade e classe social.

Achadas mais na base da posse de electrodomésticos e outros bens de ostentação de riqueza, e muito pouco nas habilitações ou cultura dos indivíduos ( sim, porque isto para comprar mais valia um estúpido rico do que um teso culto )as classes sociais dividiam-se em : A - os tão ricos que bastava escrever ou telefonar porque toda a gente sabia onde eles moravam e eram, então, tão poucos que resolveram juntá-los aos B. Os A/B -eram a classe alta.

Depois vinham os C que estavam divididos em C1 e C2, classe média alta e baixa.

E, por fim, um enorme D, para quem só me lembra de comunicar papel higiénico de folha simples (afinal já havia dês que não usavam jornal e quando é para vender tão bom é o dinheiro do pobre como o rico...)

O segredo do êxito era encontrar o ponto G da atenção do consumidor.

Comunicação ligeiramente acima do nível do alvo para, apelando à aspiração por melhor, ele fizesse a necessária projecção mas não demasiado acima, para que a identificação não se perdesse e o levasse à distanciação do "isto não é para o meu dente ".

Lembra-me na altura de ter pensado - isto era muito mais fácil no tempo da minha avó ... as classes sociais eram só três e muito distintas.

No cume, os ricos. No sopé os pobrezinhos ( tal e qual, com inhos ).

No meio da difícil escalada estavam os remediados. Era aqui que se davam algumas mudanças.

Os remediados contavam os tostões e, às vezes, não muitas mas algumas, até dava para ir à caldeirada ao Ginjal.

Cacilheiro.Tejo a brilhar, Ginjal - excepcionalmente hoje venha de lá um pireszinho de camarões.Caldeirada para todos. No fim, pudim flan e uma Macieirazinha para rebater.

Mais tarde seriam os bifes na Portugália ...

Também contava como sinal exterior de subida quantas vezes por mês se ia ao Condes ver o Wayne,  ou levava a sua senhora ao Ódeon a ver a Sarita Montiel cantar la Violetera.

No topo da ascensão - o ter carro, ir ao domingo dar a volta saloia, Estoril, Cascais, paragem na Malveira para comer trouxas e ala p'ra casa que a gasolina já está a 5$00...

Antes da televisão reinava a telefonia.O teatro radiofónico, os relatos do Benfica  e música, muita música - portuguesa, espanholadas e Piaff.

No meio a publicidade com os primeiros jingles a fazerem furor, mais coisa menos coisa eram assim :

          Candeeiros bem bonitos, modernos e originais
          Compre-os na Rádio Vitória
          Não se preocupe mais !
          Lá na rua da Vitória,46-48
          Satisfaz-se plenamente
          O cliente mais afoito.

ou ainda melhor:

           A dona salsicha quando sai da lata
           diz com alegria, eu cá sou Frescata !
           Abra um paposeco e depois então
           salsichas  Frescata no meio do pão
           Salsichas Frescata, acredite
           até fazem crescer mais o apetite
           Frescata, Frescata
           é o Rei das conservas em lata
           Diz o mundo inteiro que vida barata
           É Frescata, Frescata, Frescata !

Imbatíveis !

Quando em 56 apareceu a televisão os remediados fizeram ponto de honra em ter uma na sala, com um naperon de renda e jarrinha em cima.

Lentamente tinham subido na vida ou a vida tinha subido por eles acima. Chamavam-se já classe média e foram , durante muitos anos, o principal target para muitos produtos e serviços, mas embora farinha do mesmo saco havia nuances de mensagem entre C1 e C2 difíceis de ultrapassar.

Nos tempos de hoje eu acho que os publicitários vão tendo, cada vez mais, a vida facilitada...

Por um lado, a maioria dos clientes baixou o seu budget, algumas agências não aguentaram a escassez das margens e fecharam portas, o que levou os publicitários a escolherem outros destinos - relações públicas, guionistas, escritores (?),ilustradores e outros reformaram-se e contentam-se em mandar bocas dissertativas em blogs...

Por outro, a delapidação sistemática da classe média, com o poder de compra a descer e, de novo, o desesperado contar dos tostões,  enquanto outros aproveitam a corrupção grassante e juntam-se alegremente aos A/Bês.

Muitos cês estão mesmo à beira de se tornarem dês. Sugiro que a distinção se comece a fazer aqui e se crie os D1 e os D2...

Para facilitar a vida dos publicitários dividam as classes sociais em ricalhaços e cambada de tesos !

E avisa-se já que a caldeirada do Ginjal continua boa mas está quase a um preço A/B !!!!


Ainda a propósito de publicidade, corre aí pelo bas fond publicitário que a namorada do modelo do novo filme do Banif anda com um sorriso, de orelha a orelha,desde que ele fez o filme.Tenho de ir ver para perceber porquê...


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        
sinto-me: um bocado defraudada...
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publicado por entreparentes às 12:52
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